Mudanças Climáticas e Medicina Tropical: Estratégias para o enfrentamento das Doenças e Agravos sob a Abordagem Uma Só Saúde/Saúde Única

60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical com o tema central “Mudanças Climáticas e Impactos nas Doenças Tropicais”

Relatório Consolidado

Em oficina realizada como atividade pré-congresso com o tema “Mudanças
Climáticas e Medicina Tropical: Estratégias para o enfrentamento das Doenças e Agravos sob a Abordagem Uma Só Saúde/Saúde Única”
no 60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) no Centro de Convenções de João Pessoa (CCJP), no dia 02 de novembro de 2025, na cidade de João Pessoa, estado da Paraíba, os participantes aprofundaram o diálogo e a construção coletiva, buscando propostas para o enfrentamento dos desafios que as mudanças climáticas impõem aos biomas, à biodiversidade e às comunidades vulneráveis.

Entre setembro e outubro de 2025, foram realizados três webinários preparatórios que abordaram temas prioritários considerando as emergências, justiça e adaptação às mudanças climáticas. Esses eventos resultaram na elaboração de um documento base que foi discutido durante a oficina, com priorização das propostas consolidadas neste documento.

Essa oficina foi organizada pelo 60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, pela Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI), pela Coordenação Geral de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial (Grupo Técnico de Uma Só Saúde), pela Coordenação de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde e pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde.

Em seguida, registramos as propostas definidas na oficina nos diferentes temas abordados:

Emergências climáticas e seus Impactos nos Ecossistemas, Biodiversidade,
territórios, nas doenças e agravos.

  1. Construir e/ou fortalecer redes colaborativas intersetoriais, transdisciplinares e multiprofissionais que integrem dados, amostras biológicas, indicadores, estratégias, políticas e pessoas para a adaptação e o enfrentamento às emergências climáticas na interface de Uma Só Saúde.
  2. Fortalecer a vigilância em saúde frente às emergências climáticas, ampliando o uso integrado de plataformas de riscos ambientais e amostras biológicas para apoiar a tomada de decisão territorializada, a detecção precoce de doenças e agravos e a proteção das populações.
  3. Estabelecer estratégias de comunicação especializada e educação
    permanente, sobre o tema das emergências climáticas e doenças e agravos, utilizando linguagem acessível e canais para diferentes públicos e contextos específicos.
  4. Estabelecer e executar análises de risco para identificar áreas e hospedeiros relacionados à introdução, dispersão e circulação de patógenos emergentes, reemergentes, negligenciados e fatores de resistência que demandem vigilância aprimorada, com a alocação de recursos e infraestrutura necessários.
  5. Identificar e modelar cenários climáticos críticos na expansão de doenças e/ou agravos, para planejar respostas de curto, médio e longo prazo, a
    eventos extremos, na perspectiva atual e futura dos impactos.
  6. Investir em formação e gestão profissional especializada para
    operacionalização de redes colaborativas, incluindo contratação de equipes de comunicação.
  7. Institucionalizar a cadeia de custódia adequada de amostras biológicas e
    acesso a dados em repositórios, mediante fluxos definidos, garantindo a
    biossegurança e biosseguridade.
  8. Desenvolver e implementar ações educativas multi e transdisciplinares e
    estratégias da abordagem Uma Só Saúde e a adaptação e o enfrentamento das emergências climáticas nas competências educacionais e nos
    instrumentos de avaliação nos distintos níveis de educação.

Justiça Climática, Impactos Sociais, Econômicos e de Saúde dos povos e
comunidades tradicionais.

  1. Promover a educação climática intercultural, integrando o conhecimento
    sobre as mudanças climáticas com os saberes, valores e práticas de
    diferentes culturas, promovendo o respeito mútuo, a cooperação e a ação coletiva diante da crise ambiental global, visando desenvolver uma nova
    consciência socioambiental e mudança da realidade.
  2. Fortalecer a educação política e o controle social, visando instrumentalizar a sociedade para acompanhar, cobrar e fiscalizar a atuação do poder público, considerando/respeitando os princípios da democracia participativa e representativa e o uso estratégico das redes sociais.
  3. Garantir a representação política de grupos minoritários para implementar uma justiça inclusiva para que os poderes reconheçam a implementação da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho para participar nas
    decisões políticas da sociedade.
  4. Estimular o diálogo entre modelos de conhecimento.
  5. Reconhecer os saberes dos diferentes povos e demais segmentos sociais combatendo o racismo ambiental e científico que lhes são apregoados por meio de parcerias institucionais.
  6. Adotar uma abordagem universalista considerando que suas relações devem ser horizontais, de escuta e negociação conforme preconiza o Art. 225 da Constituição Federal.
  7. Estabelecer parcerias intersetoriais e multidisciplinares, visando integrar as perspectivas e tecnologias dos povos e comunidades tradicionais, como em instituições acadêmicas e de pesquisa. Com isso, a proposta visa estimular o diálogo entre modelos de conhecimento, visando superar assimetrias e construir um saber mais humano, considerando/respeitando as diferenças, as necessidades de a ciência ser mais humana, reconhecendo os povos e comunidades tradicionais como sujeito e não como objeto ou recursos.
  8. Garantir e ampliar a representação e a participação política de grupos
    minoritários, visando que as realidades dos povos do campo, das águas e da floresta e pessoas com sequelas em decorrência de doenças e agravos relacionadas a mudança do clima sejam consideradas nas decisões
    legislativas, considerando/respeitando a inclusão de povos e comunidades
    tradicionais no parlamento e a necessidade de “pensar a realidade por meios da participação” e “ampliar participação no parlamento”.
  9. Reconhecer o conhecimento dos povos e comunidades tradicionais na
    medicina tropical, visando valorizar suas tecnologias e sistemas de
    conhecimento, considerando/respeitando sua habitação milenar no território e o desenvolvimento de tecnologias de manejo e medicina.
  10. Garantir a proteção territorial integrada dos povos e comunidades tradicionais visando assegurar a qualidade de vida e a continuidade de seus modos de existência, considerando/respeitando que o território é visto como corpo e casa, essencial para a saúde e a subsistência dos povos.

Adaptação às Mudanças Climáticas e os Serviços Essenciais no contexto de
“Uma Só Saúde”/Saúde Única

  1. Integrar os Planos Clima, AdaptaSUS, Uma Só Saúde e outros planos e
    políticas públicas intersetoriais que colaboram para promoção de Uma Só Saúde.
  2. Apoiar estados e municípios na elaboração e implantação de planos de
    adaptação à mudança do clima de forma intersetorial, considerando as
    especificidades locais, mediante a disponibilização de guias técnicos, metodologias de trabalho, oficinas e apoio permanente aos especialistas multidisciplinares.
  3. Reconhecer as capacidades técnicas, institucionais e comunitárias, e
    fortalecer, por meio de educação popular, a compreensão da relação entre mudanças climáticas e Uma Só Saúde, e a participação ativa na elaboração e implementação dos planos.
  4. Integrar efetivamente os princípios de justiça climática, equidade, transição justa e consideração das diferenças de gênero, raça e vulnerabilidade social
    na concepção e implementação de planos de adaptação, reconhecendo que
    as populações vulnerabilizadas sofrem desproporcionalmente os impactos
    das emergências climáticas e devem ser prioridades nas ações de mitigação e resposta.
  5. Reconhecer e operacionalizar a indissociabilidade entre a Segurança Hídrica, Alimentar e Nutricional, e a Biodiversidade como elementos essenciais nos planos de adaptação climática, no contexto de Uma Só Saúde.
  6. Buscar soluções de melhoria e adaptação dos serviços de saúde para
    aumentar sua resiliência frente aos impactos das emergências climáticas e
    outros riscos ambientais visando garantir a continuidade, a qualidade e a
    segurança dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).
  7. Desenvolver estratégias integradas de financiamento (fundos nacionais e
    internacionais, parcerias público-privadas) que permitam a alocação eficiente de recursos para a implementação de planos de adaptação, mediante a união de esforços de múltiplos setores, reduzindo impactos e gerando economia de escala.
  8. Estabelecer indicadores específicos e processos de monitoramento que
    permitam avaliar continuamente a efetividade das ações de adaptação, com ciclos regulares de revisão, aprimoramento e transparência junto à sociedade civil, garantindo que os planos sejam incrementais e responsivos aos contextos em transformação.
  9. Implementar estratégias de comunicação de risco sobre impactos da
    mudança do clima na saúde humana, animal, vegetal e ambiental, utilizando linguagem acessível e canais diversificados, para que a população compreenda os riscos e saiba como se proteger e se preparar para eventos extremos.

João Pessoa, 02 de novembro de 2025.

Publicado por Associação Brasileira de Saúde Única - ABRASUNI

A Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI) foi instituída com o objetivo de consolidar e promover a abordagem integrada que abrange a saúde humana, animal, vegetal e ambiental no Brasil. O papel da ABRASUNI é articular diferentes setores, disciplinas e comunidades, fomentando uma abordagem ampliada para o enfrentamento de desafios atuais com enfoque na Saúde Única/Uma Só Saúde/One Health.

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